Caminhar em Guimarães: Moreira de Cónegos

A manhã estava invernal, com chuva e céu nublado. Apesar das previsões apontarem para algumas abertas, poucos acreditaram na meteorologia ou tiveram a vontade necessária para enfrentar as adversidades. Foi portanto com um grupo pequeno que partimos para Moreira de Cónegos, para a primeira iniciativa deste ano do ciclo “Caminhar em Guimarães”. Esta atividade visa dar a conhecer aos vimaranenses o seu território e, ao mesmo tempo, realçar pontos de interesse ambiental, positivos ou negativos.

Moreira de Cónegos, apesar de ser uma freguesia fortemente urbanizada, tem vários elementos de interesse. Atravessada pela ribeira da Madalena e com o rio Vizela a servir-lhe de fronteira com os territórios vizinhos, tem logo aqui boas razões para irmos dar uma espreitadela. Além disso, as explorações agrícolas e os pequenos montes que se elevam em vários pontos fazem do todo uma paisagem colorida e multi-facetada, em que o caótico se combina forçosamente com o harmonioso.

12308167_578935272264152_3387687896255428844_o

Depois de um curto briefing, subimos à capela de Santa Marta e penetrámos pelo monte nas traseiras do templo. Como acontece em muitos montes plantados no meio de zonas urbanizadas, as habitações estão de costas para o monte e dificilmente se consegue atravessar de um lado ao outro sem saltar vedações ou sem nos enredarmos nos silvados. Evitámos essas complicações e descemos ao arruamento logo abaixo da capela. Seguimos pelas ruelas de Moreira até bem perto da ribeira da Madalena, tomando um carreirinho interessante pela propriedade do Sr. Fernandes, que gentilmente nos cedeu passagem. A ribeira corria acastanhada, cor dita normal para um dia chuvoso. Na semana anterior era cinzenta. Um dos participantes da caminhada sugeria fazermos uma expedição desde a nascente da ribeira (perto da Lapinha, em Abação) e identificarmos onde a água começa a mudar de cor. Ideia interessante, a replicar por muitos outros cursos de água do concelho.

Continuámos pelas antigas vielas da freguesia e chegámos a Caneiro, junto ao rio Vizela, onde nos esperava o Sr. Vítor Ferreira para uma visita guiada à central hidrolétrica. Pudemos aprender como funciona todo o sistema de retenção de água e de encaminhamento desta para produção de energia pela turbina da central. Aprendemos também todo o processo de manutenção e monitorização que uma instalação deste tipo requer, assim como os cuidados a ter com a gestão do equipamento face a alterações de caudal, tanto no inverno como no verão. A natureza manda e o Homem tem de se adaptar constantemente.

12378005_578935812264098_6196695376385354853_o

Depois da instrutiva visita, regressámos ao topo da rua e fomos ao longo da linha de comboio até fletirmos em direção à Barrenta, com plantações de frutos silvestres à nossa esquerda. Neste bairro bem antigo, serpenteámos pelas suas ruelas até à Quinta da Eira, que contornámos pelo monte sobranceiro. Neste novo contacto com a natureza, observámos o contraste de beleza e de vida entre as zonas mais altas, eucaliptizadas, e o sopé, com vegetação autóctone de sobreiros e carvalhos.

12891034_578936158930730_5619803684802403729_o

Após um longo período sem chuva e com algum sol, as nuvens voltavam ameaçadoras. Apressámo-nos a chegar ao Parque de Lazer de Moreira de Cónegos, um belo acesso para o moínho situado sobre a ribeira da Madalena, recuperado por um grupo de voluntários daquela freguesia, com o apoio do projeto MAPa2012. Fomos então recebidos pelo concessionário da tasca “O Moínho”, que nos levou a conhecer as velhas mós e o forno onde ainda se coze o pão. Apesar das mós não estarem em funcionamento por dificuldades de engenharia, prevê-se que sejam repostas em operação ainda este ano. O espaço do moínho e a zona envolvente merecem sem dúvida uma demorada visita e convidam a vir com a família, pois há motivos de interesse para miúdos e gráudos. Depois de deixarmos o moínho e como já se fazia tarde para ir almoçar, atalhámos caminho até ao ponto de partida.

12885696_578936342264045_6444687278606117741_o

Ficou a faltar na foto de grupo o Luís Gonçalves que estava por trás da objetiva!

Deixamos aqui publicamente um agradecimento à Sociedade Hidroelétrica Moreirense e ao concessionário do estabelecimento de restauração “O Moínho”, pela gentileza em nos terem recebido. Pode-se consultar o registo fotográfico completo da caminhada aqui e o percurso realizado aqui.

Árvore

IMG_20151205_121455

Árvore

Sou uma árvore
Do que me nutrir
Assim darei
No que o vento der
Tornar-me-ei
Da luz, da lua
Da inclinação da vontade solar
Os frutos
As flores que romperei
As cores e a sombra de pascer

Sou árvore
Na torção do meu corpo
No silêncio dos meus braços
É que despontarei

(Por isso sou perene:
Não paro de ansiar.)

Sónia Mendes da Silva
Fotografia: Luís Gonçalves

A AVE NA PAC – VISITA À EXPOSIÇÃO “OS INQUÉRITOS [À FOTOGRAFIA E AO TERRITÓRIO]: PAISAGEM E POVOAMENTO”

990276

Carlos Lobo / Sem título, 2012 / Da série “Songs from a River”

No passado dia 17 de janeiro, a AVE realizou uma visita à exposição patente ao público na Plataforma das Artes e da Criatividade / Centro Internacional das Artes José de Guimarães. Uma exposição multifacetada, centrada na imagem fotográfica como forma de inquérito ao território português, desde o séc. XIX à atualidade, que suscita no visitante uma inquietação irrefragável perante o enquadramento dos sítios que habitamos, que percorremos ou que contemplamos. Como ponto de partida, as fotografias e outros documentos da expedição científica à serra da Estrela (1881); como núcleo central, as fotografias do Inquérito à Arquitetura Regional (1955-1957) e dos levantamentos do Centro de Estudos de Etnologia, bem como fotos do geógrafo Orlando Ribeiro, compondo a imagem de um Portugal vernacular, implacavelmente extinto, arquivado na memória. Diversos fotógrafos contemporâneos captam as dinâmicas e as dissonâncias da “paisagem transgénica” atual, como Paulo Catrica e Álvaro Domingues, ou Carlos Lobo, cujo olhar se dirige à paisagem circundante do Vale do Ave; em contraste, as imagens registadas por Duarte Belo, em diversas incursões à serra da Estrela, restituem à paisagem uma expressão telúrica, aparentemente intemporal. Um percurso fotográfico rente à costa atlântica ibérica, desde Sagres até Finisterra, é-nos proposto por Eduardo Brito, e nele viajamos, sob a luz quase igual; um outro percurso, feito em contraponto por Pedro Campos Costa e Nuno Louro, ao longo de duas linhas paralelas, regista de forma sistemática, em fotografia e em vídeo, as divergências e as aproximações entre um litoral saturado e um interior desafogado. A exposição integra ainda dois filmes, um dos quais –Um pouco mais pequeno do que o Indiana, de Daniel Blaufuks- retrata um país estagnado, acentuadamente desordenado, na ressaca do Euro 2004 (filme que, aliás, integrou a edição zero das Ecorâmicas, organizada pela AVE em 2011). Muito mais nos oferece esta exposição, digna de uma visita prolongada, através de uma diversidade de autores e de temáticas que confluem num “raro retrato panorâmico de Portugal”, uma “tentativa de leitura da paisagem a 360 graus”, como refere Samuel Silva (Antologia de um país, in Público, 16/10/2015).

Agradecemos a Nuno Faria, curador da exposição e orientador desta visita, a sua disponibilidade e a boa surpresa que nos ofereceu: a presença de alguns dos autores, que se haviam deslocado a Guimarães para o lançamento do catálogo da exposição, ocorrido na véspera, e que acompanharam a visita, falando-nos da sua obra. Valeu a pena ultrapassar o “perímetro de segurança” que parece afastar a cidade do seu centro de artes, onde, afinal, o tempo e o espaço adquirem uma dimensão maior. MMF

P1011988

Daniel Blaufuks / Um pouco mais pequeno do que o Indiana / doc., 78′, video, 2006

Caminhada pelos Rios de Jugueiros e Sendim

Depois de um temporal que elevou o caudal dos rios a níveis incomuns, tivemos o privilégio de um pouco de sol nos dias que antecederam a Caminhada pelos Rios de Jugueiros e Sendim, culminando num agradável dia de quase-primavera, que nos permitiu desfrutar do passeio em excelentes condições.

Esta caminhada teve como objetivo dar a conhecer os vários cursos de água que atravessam o vale fértil de Jugueiros e Sendim, em Felgueiras, onde desde há seculos o Homem tem tirado partido da água como força motriz e fonte de irrigação, criando um complexo sistema de levadas, moínhos, e mais recentemente canais e centrais de produção de energia elétrica. Os rios Vizela, Ferro e Bugio, que confluem em Jugueiros, são uma fonte de prosperidade para as povoações, mas também desenham na paisagem quadros de rara beleza.

Baseando-nos parcialmente no trajeto de uma Pequena Rota ainda em fase de projeto pela Câmara Municipal de Felgueiras, iniciámos a caminhada em direção a Travassós, atravessando o rio Ferro pela sua ponte medieval. Seguimos depois pelo monte de São Salvador acima, acompanhados pela passagem ocasional de ciclistas que participavam numa prova de BTT. Chegámos a temer pela segurança da caminhada, pois iriam passar por nós algumas centenas de ciclistas. Felizmente, os nossos percursos rapidamente divergiram e pudemos descer calmamente em direção a Lourido e a Barrias, onde estivemos um bom momento a apreciar a bela cascata e o cenário das ruínas de moínhos e levadas. Sem possibilidade de subir a Corvete pelo leito do rio, que apresentava um caudal ainda bastante forte, tivemos de retomar o caminho do monte. Tínhamos novamente a companhia dos ciclistas, agora de frente, mas eram os últimos do pelotão e poucas centenas de metros depois passou por nós o vassoura. Estávamos agora em pleno sossego! Após uma agradável pausa para almoço por entre a vegetação de uma quinta abandonada, retomámos o percurso, agora mais rural, até à aldeia de Corvete, onde parámos para uma fotografia de grupo.

Os participantes enfrentaram depois a maior dificuldade da caminhada, com a longa subida até Codeçais. Lá cima, voltou o ânimo, com a perspetiva do restante percurso ser praticamente todo a descer. Após um curto descanso na Igreja Matriz de Sendim, visitámos do exterior a ainda em obras Villa Romana, que se espera ser re-aberta durante este ano. Seguimos depois para Gondim, onde encontrámos finalmente um café para repor energias. Pouco depois, voltávamos ao contacto com o rio Bugio, tendo seguido pelas suas belas margens, no lugar de Escavanca. A caminhada terminou com a chegada à Igreja de Nossa Senhora da Paz, novamente em Jugueiros. Apesar do desgaste físico visível em todos participantes, depois de 7 horas e 15 km de subidas e descidas ao longo do vale, valeu a pena o esforço, pelo património ambiental e edificado que foi possível conhecer, aqui tão perto de nós!

Consulte o álbum fotográfico completo aqui e a rota da caminhada aqui.

As Ecorâmicas foram à escola EB 2,3 João de Meira

Uma vez que as Ecorâmicas não se encerram na semana da sua realização, no passado dia 12 de fevereiro, a convite do agrupamento de Escolas Professor João de Meira, a AVE proporcionou aos alunos a possibilidade de assistirem aos documentários exibidos em 2015, com o tema “A Vida da Água: Ameaças e Desafios”.

O desafio foi lançado pela professora Júlia Faria, em articulação com o Subdepartamento de EV e ET, a Eco Escolas e a AVE, e consistiu em reunir todos os alunos do 6º ano numa sessão de curtas-metragens sobre a temática da água, intercalada com mensagens informativas sobre como usar eficientemente este recurso.

A sessão contou com a participação especial do 6º G, que apresentou às restantes turmas a informação apreendida nas últimas Ecorâmicas, e com o apoio da Lara Castro e do Luís Gonçalves da AVE no espaço destinado a perguntas e respostas que se seguiu à mostra dos documentários.

A AVE congratula-se pelo entusiasmo demostrado durante a sessão, com a mudança de hábitos testemunhada pelos alunos do  6º G, esperando que sirva de mote a uma cada vez maior participação juvenil na discussão das grandes questões ambientais.

Este slideshow necessita de JavaScript.