Dia Mundial das Zonas Húmidas

Celebra-se hoje, dia 2 de fevereiro, o Dia Mundial das Zonas Húmidas.

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Segundo a definição da Convenção de Ramsar, Zonas Húmidas são “áreas de sapal, paul, turfeira, ou água, sejam naturais ou artificiais, permanentes ou temporários, com água que está estagnada ou corrente, doce, salobra ou salgada, incluindo águas marinhas cuja profundidade na maré baixa não exceda seis metros”.

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Em Guimarães, o que temos de mais parecido com uma Zona Húmida é a Veiga de Creixomil, onde parte da sua área permanece inundada por largos períodos, sendo local de abrigo e alimentação para algumas aves migratórias.

Um local com grande valor ambiental, que devemos preservar, sendo merecedor de uma atenção especial da autarquia e duma visita atenta dos vimaranenses.

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No entanto existem problemas para resolver:

Uma parte da “humidade” do local provém do sistema de saneamento, conforme se pode comprovar pelo cheiro e aspeto da água.

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Só de galochas, ou a fazer equilibrismo nos muros se consegue percorrer o caminho real.

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C R E S C E R

 
 
Os abaixo considerandos vêm a propósito da recente e profícua emanação na comunicação social local de artigos e noticias relativas ao crescimento da cidade e ao ímpeto decorativo de entradas e saídas que impõe o desígnio capital europeia da cultura.
Artigos de opinião, notícias de ambiciosos planos têm dado especial enfoque à veiga de Creixomil, como a “natural” porta de entrada de uma cidade que se quer média e de afirmação regional.
Neste aparente unanimismo na escolha de um dos territórios para quem chega à cidade, percebe-se alguma diversidade (uf…) mas apenas na multiplicidade construtiva, expressa em ousados e pós-modernos edifícios, lagos e, a prazo, outros equipamentos e funcionalidades.
Na continuada afirmação da cidade média, a prazo uma capital europeia da cultura, os gestores do território, veiculam a imperiosa necessidade de crescimento em gente e em equipamentos de fruição social e cultural. O (muito em voga) levantar do chão de obra(s) arquitectonicamente arrojada(s) e desmesuradamente cara(s), ou aquilo que alguns designam de equipamento ancora para o evento 2012, parece reunir consenso.
Quanto à capitalidade desejada, parece-me oportuno ponderarmos que cidade queremos ser, sob o risco de, se não for feito “o trabalho de casa”, descapitalizarmos os recursos e escala que ainda possuímos.
Senão vejamos. Numa Europa e Portugal em retracção demográfica e económica, a cidade de Guimarães acordou milagrosamente tarde para o descontrolado e descaracterizado crescimento urbano do último quartel do século XX português, assumindo-se (talvez involuntariamente) nalguns pontos uma lufada de ar fresco numa região bafienta e desordenada que merecidamente poderia ser apelidada de uma das mais desfiguradas e predatória de recursos naturais do país.
Quanto ao desígnio de crescimento, urbanizar a veiga de Creixomil poderia ser um importante e decisivo passo para o caos, decalcando o modelo de urbanismo da nossa vizinha Braga e do seu inestimável e pós moderno crescimento.
Nem de propósito a alguns dias calhou-me em mãos um artigo de jornal sobre Cork, cidade irlandesa que foi capital europeia da cultura em 2005. No artigo percebíamos uma pequena cidade cujo desígnio e afirmação estratégica se centrava quer no património histórico e cultural quer nas paisagens naturais, jardins e parques da cidade e região envolvente.
Outros exemplos? Olhemos para Weimar, cidade alemã de pequena dimensão (60000 habitantes??…), uma referência central na construção e afirmação cultural e politica alemã e porque não europeia, berço de escritores, compositores, pensadores, artistas, com uma vitalidade secular.
Numa era em que a multiplicidade frívola de estímulos e ambição de crescimento é inversamente proporcional à construção de um mundo enfadonho e desigual, podemos afirmar que no desígnio da capitalidade “size doesn’t matter”.
No que concerne à Veiga de Creixomil, tal como a de Balazar e de S. Torcato, são o que resta de um passado de quintas, campos de cultivo e pequenas hortas, onde muitos homens e mulheres cresceram servindo os rendeiros a troco da alimentação e guarida.
Quintas onde o trabalho à jorna (pelos criados, como antes lhe chamavam) assegurava o ganha-pão de muitos homens e mulheres, num tempo em que a industria têxtil e de fiação emergiam timidamente.
Nesse tempo (finais do sec.XIX e primeiras décadas do sec.XX) em que à cidade de comerciantes e artificies acorriam os lavradores da veiga, onde a troco da “lavadura” (leia-se restos de comida) para a alimentação dos animais e do esterco das latrinas da cidade para adubar os campos, se deixavam molhos de lenha para padarias e residências. Nesse tempo em que as lavradeiras corriam as ruas a vender leite a quartilho.
Mais do que um exercício nostálgico de um tempo que já lá vai, o relato serve para situar um território como a veiga, cuja terra e ribeiros fazem dele um espaço de inegável vocação agrícola, apropriado durante décadas por gerações de agricultores que da terra tiravam sustento e renda.
Quando ouvimos que a cidade merece uma entrada condigna com as aspirações e pergaminhos da urbe e com isto afirmamos a veiga de Creixomil como prioridade de intervenção, devemos ter cautelas no decalque de modelos de crescimento estéreis e insustentáveis. Senão vejamos:
A ideia de uma nova centralidade fundada em edifícios ou equipamentos âncora, cujas sinergias desencadeariam dinâmica, crescimento económico e dinâmica social, pode à semelhança de recentes exemplos nacionais, veicular uma ideia de urbanismo segregador, cujos territórios e preços altamente especulados são apropriados por uns (minoria) excluindo outros (a maioria).
Este mesmo urbanismo, assenta na maior parte das vezes em edifícios e equipamentos de autor (perdoem-me a expressão) cujos custos e usos públicos nem sempre são ponderados e planeados.
Assim neste desígnio não desprezível da capitalidade cultural, sugiro que a âncora seja o planeamento e afirmação definitiva de uma cidade sustentável, onde haja espaço para as veigas onde agricultores, sejam eles de fim-de-semana ou a tempo inteiro, produzam e abasteçam de frescos as casas e os mercados das cidades. Uma capitalidade que afirme em definitivo a montanha da Penha como centralidade paisagística e simbólica da cidade que queremos ser. Uma cidade onde a circulação de pessoas (não de carros), informação e conhecimento seja uma afirmação de diversidade e cultura.
Neste tempo de difusão massiva, normalizadora e hegemónica de formas de organização económica e social e de modos de vida, sugiro um tema para a capitalidade: o “id”, aqui entendido enquanto dinâmica de construção identitária que distingue cada individuo na sua idiossincrasia e circunstância. Neste mundo monolítico, o apelo à diversidade seja ela de paisagem, de culturas ou de modos de vida, é o caminho da resistência.
A afirmação de Guimarães capital cultural poderia passar por aí. Aceitemos o desafio de refundarmos um mundo novo. Descentremos a âncora para a paisagem, para a sustentabilidade assente na aceitação da diversidade de modos de vida e de formas de organização social e económica.

A M C