EIKPUNT – UMA COMUNIDADE ECOLÓGICA NOS PAÍSES BAIXOS

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Conversa sobre a possibilidade de um quotidiano alternativo (e sustentável)

Com Cristina Soeiro e Dick Timmer

Data e hora: 29 de julho de 2017, às 17h00

Local: Museu de Alberto Sampaio, Guimarães

Coordenadas: 41°26’33.37″N 8°17’32.18″W

Eikpunt é uma comunidade nos arredores de Nijmegen (Países Baixos), fundada em 2009, que assenta em quatro pilares: multigeracionalidade, sustentabilidade, silêncio e desenvolvimento comunitário. Situada perto do rio Waal, Eikpunt é formada por meia centena de habitações, construídas segundo princípios ecológicos e de eficiência energética, com a colaboração dos seus habitantes. É uma comunidade aberta à envolvente, onde o quotidiano é organizado de forma solidária, procurando coletivamente um modo de vida mais sustentável, menos dependente dos rituais frenéticos do consumismo.

Organização: AVE – Associação Vimaranense para a Ecologia em parceria com o Museu Alberto Sampaio.

A propósito do dia mundial do meio ambiente e da vida que se faz nas árvores

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“As oliveiras, com os seus ramos torcidos e inclinados, eram para Cosimo esplêndidos caminhos, cómodos e planos. Ao mesmo tempo, aquelas árvores eram para ele mais queridas e pacientes, poquanto a casca, rugosa e cheia de asperidades, era das melhores para apoiar os pés e permitir o equilíbrio, ainda que os ramos grossos escasseassem bastante em cada árvore, não permitindo, deste modo, uma grande variedade de movimentos. Em vez delas, as figueiras, desde que se tenha o cuidado de não pisar senão aqueles ramos que suportem bem o peso, permitem, com a sua grande variedade de troncos e a extensão que cobrem, inúmeras voltas e itinerários sempre novos. Sob o espesso pavilhão das folhas, Cosimo vê o sol transparecer pelo meio das nervuras que riscam as largas páginas das folhas, os frutos verdes aumentarem pouco a pouco e sente o aroma do suco leitoso que escorre pelo colo dos pedúnculos. A figueira como que se apropria de quem está em cima dela, como que o impregna da sua seiva leitosa e até do próprio zumbido das abelhas; ao fim de pouco tempo, porém, Cosimo, na sua atitude de estática imobilidade, corria o risco de ele próprio se confundir com um figo e, pouco à vontade, afastava-se.
Está-se bem em cima de um rijo sobreiro ou de uma amoreira carregada de frutos; só é pena que escasseiem. Assim também as amoreiras. E, às vezes, eu próprio, que em tudo seguia o meu irmão, vendo-o enfronhar-se entre a ramaria de uma velha nogueira já meio carcomida, imaginando-a um estranho palácio de construção bizarra, com muitos pisos e inumeráveis quartos, sentia apoderar-se de mim um desejo quase irreprimível de o imitar, de subir também para cima das árvores; tal é a força e certeza com que uma árvore afirma a sua personalidade de árvore, e a sua obstinação em ser pesada e rija, que exprime até nas próprias folhas.”
 
Italo Calvino, O Barão Trepador. Editorial Teorema, Lisboa, 1999, pp. 101-102

Livro do mês

As vozes de Chernobyl

Svetlana Alexievitch

Vozes de Chernobyl – história de um desastre nuclear 

“-A Zona…Um mundo à parte…Foi primeiro inventado pelos escritores de ficção científica, mas a literatura retrocedeu perante a realidade.”

Há quem julgue que o prémio Nobel se ganha por causa de um único livro. Se fosse esse o caso, só poderia ser este o livro que deu em 2015 o Prémio Nobel da Literatura à escritora bielorrussa Svetlana Alexeievitch…

Este é um livro sem narrador, ou melhor, com múltiplos narradores, que são as “vozes” de todos aqueles que sofreram direta ou indiretamente o maior desastre nuclear da história. Escutamos as vozes dos que foram forçados a partir e nunca mais voltaram, as vozes dos que se recusaram a partir e ficaram, as vozes daqueles que partiram e insistiram em regressar… e as vozes daqueles que vieram porque a radiação era uma adversidade preferível a uma guerra fratricida.

O livro não tem explicações científicas nem desculpas políticas. Abre com um relato pungente da mulher de um bombeiro, uma das primeiras vítimas do acidente, que acorreu ao que se pensava ser um simples incêndio numa central nuclear… É um relato violento, uma autêntica via dolorosa que acumula o desnorteio vivido nos primeiros dias após o acidente. Depois há uma multidão de vozes que sussurram sofrimento e incompreensão, mas também fascínio e atração por um mundo morto e uma terra fantasma.

Numa altura em que as vozes atuais se dividem a favor ou contra a central nuclear de Almaraz, recomendamos a leitura desta obra para melhor compreensão dos efeitos invisíveis da radioatividade. Será que devemos confiar na voz de governantes que apelam à “tranquilidade” e que afirmam que o perigo só existe num raio de 30 km à volta da central? Ou vamos deixar-nos guiar pelas vozes da experiência que asseguram que “só os escaravelhos da batata andam felizes da vida (…) a comer as nossas batatinhas” depois de um acidente nuclear?

As Vozes de Chernobyl
de Svetlana Alexievich
Trad. Galina Mitrakhovich
Elsinore: Amadora, 2016, 328 p.

 

Kostin Igor. Corbis Sygma

Kostin Igor/Corbis Sygma

O PERIGO NUCLEAR

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26 de abril de 1986.  Aqui em Portugal, tal como no resto do mundo, só tivemos a confirmação do acidente semanas depois…

A informação, tal como a radiação libertada pelo reator 4 da central de Chernobyl, era invisível e só quando, para espanto do mundo, Gorbachev anunciou  que a “energia nuclear estava fora de controlo”, nos apercebemos que não era necessária uma guerra, para que a Europa ficasse contaminada pela radiação nuclear.

Porque a radiação não respeita nem fronteiras, nem planos de prevenção,  o blogue deste mês de Abril  é dedicado ao perigo nuclear.

Todos os meses, o nosso blogue irá dedicar-se a outros temas cuja atualidade mereça discussão e reflexão.

Dia da árvore – que sejam todos os dias

Apollo and Daphne
Apolo e Dafne, Piero del Pollaioloóleo sobre madeira, c. 1470-80, The National Gallery

“Mal acabara a sua súplica, quando um pesado torpor invade os seus membros;
Uma delgada cortiça cinge o seu delicado peito;
Os cabelos crescem como folhas, os braços como ramos,
Os seus pés até há pouco tão velozes aderem por raízes preguiçosas;
Em lugar do rosto tem uma copa; apenas a beleza permanece nela.”

Ovídio, Metamorfoses, vv. 548-552