C R E S C E R

 
 
Os abaixo considerandos vêm a propósito da recente e profícua emanação na comunicação social local de artigos e noticias relativas ao crescimento da cidade e ao ímpeto decorativo de entradas e saídas que impõe o desígnio capital europeia da cultura.
Artigos de opinião, notícias de ambiciosos planos têm dado especial enfoque à veiga de Creixomil, como a “natural” porta de entrada de uma cidade que se quer média e de afirmação regional.
Neste aparente unanimismo na escolha de um dos territórios para quem chega à cidade, percebe-se alguma diversidade (uf…) mas apenas na multiplicidade construtiva, expressa em ousados e pós-modernos edifícios, lagos e, a prazo, outros equipamentos e funcionalidades.
Na continuada afirmação da cidade média, a prazo uma capital europeia da cultura, os gestores do território, veiculam a imperiosa necessidade de crescimento em gente e em equipamentos de fruição social e cultural. O (muito em voga) levantar do chão de obra(s) arquitectonicamente arrojada(s) e desmesuradamente cara(s), ou aquilo que alguns designam de equipamento ancora para o evento 2012, parece reunir consenso.
Quanto à capitalidade desejada, parece-me oportuno ponderarmos que cidade queremos ser, sob o risco de, se não for feito “o trabalho de casa”, descapitalizarmos os recursos e escala que ainda possuímos.
Senão vejamos. Numa Europa e Portugal em retracção demográfica e económica, a cidade de Guimarães acordou milagrosamente tarde para o descontrolado e descaracterizado crescimento urbano do último quartel do século XX português, assumindo-se (talvez involuntariamente) nalguns pontos uma lufada de ar fresco numa região bafienta e desordenada que merecidamente poderia ser apelidada de uma das mais desfiguradas e predatória de recursos naturais do país.
Quanto ao desígnio de crescimento, urbanizar a veiga de Creixomil poderia ser um importante e decisivo passo para o caos, decalcando o modelo de urbanismo da nossa vizinha Braga e do seu inestimável e pós moderno crescimento.
Nem de propósito a alguns dias calhou-me em mãos um artigo de jornal sobre Cork, cidade irlandesa que foi capital europeia da cultura em 2005. No artigo percebíamos uma pequena cidade cujo desígnio e afirmação estratégica se centrava quer no património histórico e cultural quer nas paisagens naturais, jardins e parques da cidade e região envolvente.
Outros exemplos? Olhemos para Weimar, cidade alemã de pequena dimensão (60000 habitantes??…), uma referência central na construção e afirmação cultural e politica alemã e porque não europeia, berço de escritores, compositores, pensadores, artistas, com uma vitalidade secular.
Numa era em que a multiplicidade frívola de estímulos e ambição de crescimento é inversamente proporcional à construção de um mundo enfadonho e desigual, podemos afirmar que no desígnio da capitalidade “size doesn’t matter”.
No que concerne à Veiga de Creixomil, tal como a de Balazar e de S. Torcato, são o que resta de um passado de quintas, campos de cultivo e pequenas hortas, onde muitos homens e mulheres cresceram servindo os rendeiros a troco da alimentação e guarida.
Quintas onde o trabalho à jorna (pelos criados, como antes lhe chamavam) assegurava o ganha-pão de muitos homens e mulheres, num tempo em que a industria têxtil e de fiação emergiam timidamente.
Nesse tempo (finais do sec.XIX e primeiras décadas do sec.XX) em que à cidade de comerciantes e artificies acorriam os lavradores da veiga, onde a troco da “lavadura” (leia-se restos de comida) para a alimentação dos animais e do esterco das latrinas da cidade para adubar os campos, se deixavam molhos de lenha para padarias e residências. Nesse tempo em que as lavradeiras corriam as ruas a vender leite a quartilho.
Mais do que um exercício nostálgico de um tempo que já lá vai, o relato serve para situar um território como a veiga, cuja terra e ribeiros fazem dele um espaço de inegável vocação agrícola, apropriado durante décadas por gerações de agricultores que da terra tiravam sustento e renda.
Quando ouvimos que a cidade merece uma entrada condigna com as aspirações e pergaminhos da urbe e com isto afirmamos a veiga de Creixomil como prioridade de intervenção, devemos ter cautelas no decalque de modelos de crescimento estéreis e insustentáveis. Senão vejamos:
A ideia de uma nova centralidade fundada em edifícios ou equipamentos âncora, cujas sinergias desencadeariam dinâmica, crescimento económico e dinâmica social, pode à semelhança de recentes exemplos nacionais, veicular uma ideia de urbanismo segregador, cujos territórios e preços altamente especulados são apropriados por uns (minoria) excluindo outros (a maioria).
Este mesmo urbanismo, assenta na maior parte das vezes em edifícios e equipamentos de autor (perdoem-me a expressão) cujos custos e usos públicos nem sempre são ponderados e planeados.
Assim neste desígnio não desprezível da capitalidade cultural, sugiro que a âncora seja o planeamento e afirmação definitiva de uma cidade sustentável, onde haja espaço para as veigas onde agricultores, sejam eles de fim-de-semana ou a tempo inteiro, produzam e abasteçam de frescos as casas e os mercados das cidades. Uma capitalidade que afirme em definitivo a montanha da Penha como centralidade paisagística e simbólica da cidade que queremos ser. Uma cidade onde a circulação de pessoas (não de carros), informação e conhecimento seja uma afirmação de diversidade e cultura.
Neste tempo de difusão massiva, normalizadora e hegemónica de formas de organização económica e social e de modos de vida, sugiro um tema para a capitalidade: o “id”, aqui entendido enquanto dinâmica de construção identitária que distingue cada individuo na sua idiossincrasia e circunstância. Neste mundo monolítico, o apelo à diversidade seja ela de paisagem, de culturas ou de modos de vida, é o caminho da resistência.
A afirmação de Guimarães capital cultural poderia passar por aí. Aceitemos o desafio de refundarmos um mundo novo. Descentremos a âncora para a paisagem, para a sustentabilidade assente na aceitação da diversidade de modos de vida e de formas de organização social e económica.

A M C

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