A Carriça

Para o “Caminhar em Guimarães: Por Terras de Souto, Gonça e Gondomar”, ocorrido a 4 de junho (consultar roteiro ou evento Facebook), produzimos mais uma edição dos Bilhetes de Identidade da fauna e flora da nossa região. Voltamos às aves, para conhecer a interessante carriça. Descarregue o folheto original ou consulte abaixo o texto de Paulo Gomes.

A Carriça

Mais uma pequena ave que vive muito perto de nós e muitas vezes nem damos por ela. Diminuta, cauda arrebitada e plumagem castanho ferrugíneo. A cabeça e o dorso castanho mais escuro e parte de baixo do corpo mais claro, cor de areia. De perto vê-se que as sobrancelhas são um pouco mais claras e que o bico é longo, pontiagudo e ligeiramente encurvado. Mantém-se quase todo o ano na mesma zona, num território pouco extenso. Habita de preferência bosques húmidos, ricos em húmus, mas também gosta de jardins.

carrica1 No início da Primavera, o macho inicia um grandioso projeto de construção. Em menos de nada, instala no território que lhe pertence, diversos ninhos para aumentar as hipóteses de seduzir uma fêmea. Os ninhos são esféricos e ficam, no máximo, a três metros do solo. São feitos de folhas, musgo e outros materiais secos. Além de muito empreendedor, o macho da carriça dá sinais de ser um pouco perfecionista, já que está permanentemente a examinar a sua obra, tentando ver se há alguma folhinha a mais ou a menos. Na Primavera canta energeticamente, procurando atrair as fêmeas da redondeza. Pode surpreender-nos ao fazer o ninho em locais tão improváveis com um cabo de cebolas, uma peça de roupa que se deixou pendurada tempo de mais ou uma bota velha que penduramos numa árvore (pouco comum em caixas ninho). O macho deixa que a fêmea se ocupe dos ovos, enquanto procura seduzir outras fêmeas. Como se isso não bastasse, recomeça a fazer a corte à sua companheira logo que a primeira ninhada dá sinais de independência.

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O grafismo do folheto PDF foi da responsabilidade de Luís Gonçalves.

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A propósito do dia mundial do meio ambiente e da vida que se faz nas árvores

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“As oliveiras, com os seus ramos torcidos e inclinados, eram para Cosimo esplêndidos caminhos, cómodos e planos. Ao mesmo tempo, aquelas árvores eram para ele mais queridas e pacientes, poquanto a casca, rugosa e cheia de asperidades, era das melhores para apoiar os pés e permitir o equilíbrio, ainda que os ramos grossos escasseassem bastante em cada árvore, não permitindo, deste modo, uma grande variedade de movimentos. Em vez delas, as figueiras, desde que se tenha o cuidado de não pisar senão aqueles ramos que suportem bem o peso, permitem, com a sua grande variedade de troncos e a extensão que cobrem, inúmeras voltas e itinerários sempre novos. Sob o espesso pavilhão das folhas, Cosimo vê o sol transparecer pelo meio das nervuras que riscam as largas páginas das folhas, os frutos verdes aumentarem pouco a pouco e sente o aroma do suco leitoso que escorre pelo colo dos pedúnculos. A figueira como que se apropria de quem está em cima dela, como que o impregna da sua seiva leitosa e até do próprio zumbido das abelhas; ao fim de pouco tempo, porém, Cosimo, na sua atitude de estática imobilidade, corria o risco de ele próprio se confundir com um figo e, pouco à vontade, afastava-se.
Está-se bem em cima de um rijo sobreiro ou de uma amoreira carregada de frutos; só é pena que escasseiem. Assim também as amoreiras. E, às vezes, eu próprio, que em tudo seguia o meu irmão, vendo-o enfronhar-se entre a ramaria de uma velha nogueira já meio carcomida, imaginando-a um estranho palácio de construção bizarra, com muitos pisos e inumeráveis quartos, sentia apoderar-se de mim um desejo quase irreprimível de o imitar, de subir também para cima das árvores; tal é a força e certeza com que uma árvore afirma a sua personalidade de árvore, e a sua obstinação em ser pesada e rija, que exprime até nas próprias folhas.”
 
Italo Calvino, O Barão Trepador. Editorial Teorema, Lisboa, 1999, pp. 101-102

Caminhar em Guimarães: Por Terras de Souto, Gonça e Gondomar

No próximo dia 4 de junho, em jeito de celebração do Dia Mundial do Ambiente, vamos voltar ao nosso “Caminhar em Guimarães” e partir à descoberta da parte norte do concelho, que se caracteriza, ainda, pela sua ruralidade. Iremos conhecer o território de Souto (Santa Maria), Gonça e Gondomar onde, para além dos atrativos dos cenários rurais, iremos também contactar com realidades menos românticas, como é o caso do já desativado aterro sanitário de Gonça e de algumas pedreiras de Gondomar, famosas pelos danos já causados à qualidade da água do rio Ave. Trata-se de uma boa oportunidade para o caminhante conhecer de perto aquilo que provavelmente só conhece dos jornais. Perto do final da caminhada de 9 km, iremos realizar um agradável piquenique à sombra do arvoredo que ladeia o conjunto de moínhos do Ribeiro, em Souto.

Adira ao evento da caminhada no Facebook e fique a par de todas as informações até à data do evento.

Não é necessária inscrição na caminhada. Basta aparecer! A caminhada é gratuita para os associados da AVE com quotas em dia e terá o custo simbólico de 1 euro para os restantes participantes.

NOTA: esta caminhada não inclui seguro e pode ser adiada ou alterada por razões externas à organização.

Por terras de Souto, Gonça e Gondomar

Partindo do cemitério de Souto Santa Maria, vamos passar junto aos aviários, e daí, subir o monte até ao aterro de Gonça. Na descida, vamos contemplar a paisagem ímpar do vale do Rio Ave e os montes de São Romão (Citânia de Briteiros), Sameiro e Santa Marta. As pedreiras de Gondomar estão à nossa espera, para nos mostrar a desfiguração paisagística e a poluição ambiental, do ar e da água, por elas provocada.

Já quase no final do percurso, surgem os moínhos do Ribeiro, local de rara beleza, onde, à sombra de grandiosos carvalhos e de outras árvores autóctones, vamos comer o almeiro e relaxar com o som da água que corre em sucessivas cascatas formadas pelo desnível dos penedos. Eram cinco os moínhos de cubo que constituíam este “verdadeiro complexo pré-industrial”, dos quais um está restaurado e à espera da nossa visita.

Logística

Pretendemos iniciar a caminhada às 9h30, junto ao cemitério de Souto Santa Maria. Estimando uma viagem com duração de 15 minutos a partir de Guimarães, o ponto de encontro terá lugar junto à entrada do campus da Universidade do Minho, em Azurém, às 9h00. Recomendamos a partilha de automóvel, para diminuirmos a pegada ecológica desta atividade.

Perto do final da caminhada, faremos um pique-nique. Cada participante deverá levar o seu próprio farnel.

Para alguma eventualidade em que seja necessário contactar a organização, podem ser usadas duas alternativas: info@ave-ecologia.org (e-mail) ou 912 840 699 (telefone).

Ficha técnica

  • Distância: 9 km
  • Dificuldade: média, com algum desnível na primeira metade do trajeto.
  • Duração estimada: 4 a 5 horas

Antevisão

Os Carvalhais de Fafe

No âmbito da caminhada “Aldeias das Margens do Rio Vizela”, que teve lugar no dia 23 de abril (consultar roteiro ou evento Facebook), produzimos mais uma edição dos folhetos educativos da AVE, desta feita dedicada aos Carvalhais de Fafe. Descarregue o folheto original ou consulte abaixo o texto de Manuel Miranda Fernandes.

Os Carvalhais de Fafe

Este percurso atravessa alguns trechos de carvalhal, que impõem uma singular presença na paisagem das serras de Fafe. Dominado por carvalho-alvarinho e carvalho-negral, este tipo de floresta alberga uma diversidade considerável de flora e fauna, constituindo um ecossistema com notável valor ecológico. Sabe-se que, após o final do último período glaciar, há cerca de 10.000 anos, os carvalhais formaram grandes extensões no noroeste ibérico, favorecidos pela melhoria das condições climáticas. As atividades humanas, como a pastorícia, a agricultura, a carvoaria e a mineração, levaram ao declínio destes bosques, que atualmente se encontram apenas em locais mais remotos ou de difícil acesso. Contudo, nos carvalhais de Fafe, a atividade humana pode ter contribuído para a sua conservação, através da indústria da casca de carvalho, outrora com grande valor económico local. A casca extraída de cada árvore, em intervalos de quatro anos, era seca e moída, sendo enviada como fonte de taninos para as indústrias de curtumes de Guimarães e do Porto. Embora esta prática tenha cessado, a sua memória mantém-se, tendo sido inaugurado em Aboim, em 2014, o Museu da Casca de Carvalho.

Notas sobre o carvalho-alvarinho (Quercus robur L.)

É uma árvore que atinge porte elevado (30 a 40 m de altura), com tronco robusto e copa ampla e regular. As folhas, verde-escuras na página superior e mais claras na inferior, são recortadas em lóbulos arredondados, murchando em cada Outono e brotando na Primavera seguinte (espécie caducifólia). As flores masculinas são minúsculas, amarelo-esverdeadas, dispostas em espigas pendentes (amentilhos); as flores femininas formam-se-se na axila das folhas. Os frutos são as conhecidas bolotas – uma semente envolvida por uma cúpula. Não devem ser confundidas com os bogalhos, que são uma forma de proteção da árvore contra as posturas de insetos.

A madeira, de excelente qualidade, é usada na construção civil e naval, em marcenaria e em tanoaria. O fruto pode ser usado na alimentação do gado, mas usou-se outrora para fazer pão. Esta árvore foi sempre considerada como uma das mais nobres das espécies florestais europeias, atingindo vários séculos de longevidade. Em Portugal é espontânea no Norte e Centro, nas áreas com maior pluviosidade.


A composição dos textos esteve a cargo de Paulo Gomes e o grafismo do folheto PDF foi da responsabilidade de Luís Gonçalves.

Identificar Plantas com os 5 Sentidos: Jogo com Plantas Aromáticas

Com Raquel Ferreira e Raúl Freitas

No dia 11 de abril estivemos na escola EB1/JI de Santa Luzia com a atividade “Identificar Plantas com os 5 Sentidos: Jogo com Plantas Aromáticas”. Participaram na atividade 41 crianças que estavam na escola no contexto de tempos livres das férias da Pascoa. Foi uma manhã muito animada em que todos participaram ativamente. Depois do jogo terminar, as crianças recorrendo à técnica de propagação por estacas, colocaram as plantas usadas no jogo em vasos com terra na estufa da escola para que todos pudessem cuidar, ver e usar as plantas durante o ano.